quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O SOL E A MAJESTOSA SELVA AMAZÓNICA


A SELVA - "Eu devia este livro a essa majestade, soberba e enigmática, que é a SELVA AMAZÓNICA, pelo muito que nela sofri durante os primeiros anos da minha adolescência e  pela coragem que me deu para o resto da vida" - assim fala Ferreira de Castro, escritor português, quando inicia a escrita da sua obra prima - A SELVA - nasceu em 1898 e morreu em 1974, foi o grande precursor do neo-realismo.  A Selva é um dos livros mais traduzidos em todo o mundo. A sua foi a maneira mais violenta e cruel de conhecer aquela que ainda é uma das maravilhas naturais do PLANETA TERRA!

Desde o dia que li aquele livro, o primeiro de toda a  colecção publicada, ainda na minha adolescência, não  deixei de pensar no dia que  iria conhecer aquele lugar, longe da África minha. Levou anos sem fim, mas esse dia chegou e aqui descrevo alguns dos momentos mais emocionantes desta minha viagem. Conheci pessoalmente Ferreira de Castro, pouco tempo antes  de morrer, foi meu passageiro de Lisboa para Paris. Entrou no avião pela porta traseira do CARAVELLE, muito tímido e calado. Não queria  apertar o  cinto de segurança, mas  conversei com ele  e convenci-o que era necessário, disse-lhe como os livros dele me tinham influenciado e incutido a "febre" de viajar, a ponto de escolher essa como a minha profissão. Durante  a minha estadia na AMAZÓNIA foram para  ele todos os meus pensamentos nos melhores momentos.

De manhã fizémos uma longa caminhada pelo trilho da floresta, guiados pelo cabloco, guia local, que nos ía ensinando os nomes das árvores, as espécies de plantas, o seu uso na medicina, os benificios para o corpo humano, a idade das raízes  centenárias, a história de toda a selva em toda a sua pujança......sempre acompanhados pelo cantos dos passáros que nos viam lá de cima do topo das árvores, mas teimavam em se esconder......um ou outro macaco também queria fazer parte do grupo na  caminhada, balançava-se  nas lianas e não queriam  descer.....

                                                                                                                                                                
 Regressámos antes do entardecer e fui a correr para o pontão, o local de melhor visão para o marvilhoso espectáculo que em breve iria acontecer - o por-do-sol
na floresta. Acabava de me acomodar, pronta para captar as melhores imagens. eis senão quando oiço uns passinhos surdos e ligeiros. Eram eles, os danados - macacos de  cheiro - de  nome científico - SAMIRI SCIUREUS - ou JURUPARI - são pequenos, ágeis e elegantes, saltam como acrobatas sem rede, voam nos topos das árvores, gostam de trepar por tudo que é lugar e são exímios no pilhar.
Era um jovem macho,de pêlo curto dourado e rabo comprido enrolado, aproximou-se do meu lugar, olhou, mirou com aqueles olhinhos doces pintados de negro, chegou-se um pouco a medo, sorriu com aquela boquinha de palhaço, pulou-me para o ombro, depois para o regaço cheio de ternura e  depois, zás-trás - o ladrão roubou-me a manga da minha mão...o safado, mais  parecia o fantasma da ópera, de mascara branca, todo pintado, mas mais inocente e janota!
abriu a manga, lambeu a polpa com aquela linguinha vermelhinha, sorveu o suco, arrotou e cuspiu e, depois de barriga cheia fez uma cara feia, esticou-se no corrimão e adormeceu como um menino, o garotão....... 
          







       
Lá no fundo, para além da floresta, já o sol descia e o fenómeno acontecia. O céu mudava de cores, de amarelão açafrão ao alaranjado, do carmim  ao vermelhão pimentão, a  selva parecia que ardia e estremecia, como se um fogo violento a devorasse, sem dó nem piedade e um artista  genial a retratasse num fabuloso quadro surreal, mas era só um divino por-do-sol.


A quebrar o profundo silêncio, aquele  momento de pura reflexão, ouviu-se uma estridente gargalhada, era ela a espalhafatosa arara - a CANIDÉ -muito garnizé, vestida de penas azuis, muito galante, no peito um colar cor de oiro, o olho verde grande e brilhante, o bico curvo e duro,  sentou-se ali a ao pé.
 

Por fim aparece o senhor TUCANO, vaidoso e cheio de pose, olho negro arregalado e pintado,  lenço branco ao pescoço, bico longo e grosso, um pouco desageitado, perdeu o pio, o coitado....................


A plateia estava completa , mas lá em cima havia um lugar, no camarote, naquele tronco de árvore, e lá estava outro tucano, todo negro de bico amarelo, o gaiteiro de poleiro banhava-se inteiro com os ultimos raios de sol.



o crepúculo
Mas já o rei-Sol mergulhava para lá da floresta, num segundo desapareceu, caíu como um cometa no planeta e foi engolido pela majestosa selva. Nascía então o crepúsculo, suas cores exóticas tudo invadiram, o céu deu lugar a um cenário perfeito onde o espectaculo acontecia - era a hora de poesia - verdadeiro momento de magia! O palco ali, era apenas um lago consumido pelas labaredas, onde  o fogo queimava mas não ardia, e no ar  a PAZ E A SERENIDADE transcendiam!


PURA ILUSÃO!

Lá bem no fundo do coração daquele lago mágico de águas limpidas e serenas reinavam os perigos e às dezenas habitavam as piranhas devoradoras, as cobras venenosas e os jacarés de dentes finos e afiados, indiferentes  àquele momento e alheios ao mágico espectáculo. Foram só uns escassos minutos de ilusão, mas profundos e  intensos que se registam para sempre na memória e entram no coração.......

A luz desapareceu, reinava o silêncio no negrume da noite, as árvores essas eram fantasmas, como vultos estranhos deslizavam no ar, as  aves voaram, os macacos  fugiram, o cenário sofria, como uma metamorfose serena mas doentia, eu afastei-me lentamente, guiada pelo lusco-fusco que ainda existia, o manto da noite toda a floresta já cobria.
Mas a SELVA AMAZÓNICA essa permanecia  intacta, SOBERBA, ENIGMÁTICA E MAJESTOSA, tal como Ferreira de Castro a amou!


13 comentários:

  1. Muito obrigado pelo seu testemunho.
    Gostava de o ouvir de viva voz. Um dia que passe pelo Museu, em Sintra, não deixe de me avisar...

    ResponderEliminar
  2. Gostei de"ler" em cada foto a magia irrepetível do momento captado.
    Depois, citar Ferreira de Castro, é lembrar o escritor que o grande publico continua a desconhecer e foi um homem com a palavra singular do povo.
    Tive o grato prazer de o conhecer nos entretens do café na Brasileira do Chiado.
    Parabéns pelo post e por dar leitura à palavra do escritor.

    ResponderEliminar
  3. Oi Helena vim te conhecer, fiquei feliz por ter estado em meu blog, será sempre bem-vinda!
    E quanto a esse seu post, simplesmente maravilhoso, viajei com vc nesse passeio poético pela selva amazônica.

    ResponderEliminar
  4. Olá Helena!

    Li a Selva ainda na juventude, quando bibliotecário na colectividade da minha aldeia:Sendo muito jovem então, o livro fascinou-me, ainda que não o tenha apreendido em todo o seu significado.
    A Helena faz aqui retrato magnífico do que viu, num texto tão cheio de cor como as próprias fotografias que ilustram a descrição.
    Só discordo num ponto; o janota do macaco nada tinha de inocente - acho que seria mais a Helena... Macaco, acho que nunca é inocente!
    E só faço mais uma observação, que não me foi pedida.A Helena escreve lindamente, duma forma cativante - só o tamanho dos textos não ajuda a que sejam mais lidos: quem passa por aqui, normalmente fá-lo a correr, o que é pena ...

    beijinhos.bom fim de semana!
    Vitor

    ResponderEliminar
  5. Helena, minha querida!
    Uma africana entende bem isto de pôr de sol,selva,magia e encanto....ainda ontem á noite pela quinquagéssima vez (ou será mais?) via o filme África Minha... e as paisagens que nos são tão familiares, traziam-me os cheiros, as lembranças tão vivas e a nostalgia do final...e Karen nunca mais voltou a África!!!
    Pois eu vivi a tua crónica passo a passo, desejosa de estar contigo. Bem escrita, convidativa e aquelas fotos maravilhosas...não só do pôr do sol ...mas de TUDO! Bem-hajas!
    Mil beijocas|
    Graça

    ResponderEliminar
  6. *
    Ferreira de Castro,
    do meu contentamento !
    obrigado .
    ,
    conchinhas,
    ,
    *

    ResponderEliminar
  7. Nice blog. I liked it! You should visit and follow my blogs. I am sure that you will like them. Thanks..

    http://antalya-magnificent-city.blogspot.com/

    http://tulparturkdunyasi.blogspot.com/

    ResponderEliminar
  8. Feliz Natal, Helena.

    Com a PAZ que merecemos.

    Um grande beijinho,

    Linda Simões

    ResponderEliminar
  9. Maravilhosas estas imagens que nos transportam até um dos lugares mais belos da Terra, já que não prevejo nesta minha passagem por Ela aí algumas vez estar, ficam estas imagens para apreciar tanta beleza, beijo FELIZ ANO NOVO, obrigada por ver o meu blog......

    ResponderEliminar
  10. Oi Helena Agradeço a visita, suas fotos são sempre de grande impacto emocional que o seu trabalho destacam-se muito bem na África.
    Você é muito gentil com seus doces sentimentos nunca acabam, graças a existir.
    Beijos Meuso
    Morris

    ResponderEliminar
  11. Ao navegar em buscas das arvores gigantes, não sei como cheguei ao seu blog, mais estou agradecida e louvo a Deus por sua coragem de viajar por tantos paises e florestas, ao descrever a terra onde um dia em 1952 eu nasci, meu coração bateu apressado, e mergulhei em suas lendas sobre o Amazonas,o sonho de minha vida,oportunidade que nunca me foi proporcionado em minha juventude, e agora em minha velhice,conheço atravez de seus olhos a terra que foi o meu berço natal. Obrigada amada jovem, por me dá esta alegria tão importante, que esteve dormindo em meu coração, e despertuou hoje do seu sono, na Realidade, de suas viagens em sua realidade,,,Ainda não li tudo sobres seu trabalho,e su blog mais promento não dormir emquanto não viajar com você, em suas reportagems, que não tenhoa palavra para descrever tal beleza , Obrigada parece uma palavra vazia se porvetura ouvese, outra palavra mais apropiada? para ti dizer Obrigada por voce, existir com tanta riqueza e tanta beleza desta Terra desconhecida antes e agora real, atravez de você. Atenciosamente Obrigada! Graicy Oosterbaan , Amsterdam 20-08-12

    ResponderEliminar